Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

quarta-feira, 23 de março de 2011

Escravos da Alegria - Cantares de todos nós (VI)


Escravo da Alegria  
(o vídeo com a música se encontra no fim deste post)

Composição: Mutinho e Toquinho

E eu que andava nessa escuridão
De repente foi me acontecer
Me roubou o sono e a solidão
Me mostrou o que eu temia ver
Sem pedir licença nem perdão
Veio louca pra me enlouquecer
Vou dormir querendo despertar
Pra depois de novo conviver
Com essa luz que veio me habitar
Com esse fogo que me faz arder
Me dá medo e vem me encorajar
Fatalmente me fará sofrer
Ando escravo da alegria
E hoje em dia, minha gente, isso não é normal
Se o amor é fantasia
Eu me encontro ultimamente em pleno carnaval


Ah!!! Esse violão!... Logo eu, que nada sei sobre música, mas sei que há alguma coisa aí nesse dedilhar, nessa melodia, no solo magoado desse violão. O que será? E eu, que nada sei sobre técnicas musicais, partituras ou composições, sou apenas um apreciador intuitivo, passivo... Você sabia que as palavras "paixão" e "passivo" possuem a mesma raiz grega? E um dos significados é exatamente o de permanecer imóvel; sofrer pacientemente a ação de algo que não se consegue definir, que não se pode compreender. Esta "passividade" faz parte da experiência religiosa de muitas tradições místicas, cristãs e não-cristãs. É também a mesma paixão que subjaz a catarse da tragédia grega, que, evidentemente, é uma experiência religiosa, espiritual, claro! Tanto o personagem da tragédia quanto o espectador da peça de teatro se viam involuntariamente passivos, impotentes, incapazes para a autodeterminação diante disso tudo que fatalmente os fará sofrer!

Assim, sempre me surpreendeu a linguagem religiosa dessa letra. Propositadamente, muitos compositores fazem um jogo religioso-profano para expressar o amor entre um homem e uma mulher. E a letra acima é um bom exemplo de como a música popular brasileira foi profundamente influênciada por uma linguagem que bem poderia ser aplicada à experiência religiosa num momento de paixão, de passividade, que é perplexidade, que é essa abdicação forçada da vontade livre e racional. 

Cabe, agora, um parágrafo elucidativo, a quem possa interessar (não vou desenvolver o tema), todavia, uma das diferenças básicas do profetismo pagão e do profetismo judaico-cristão é, especificadamente, que naquele o profeta entrava nessa confusão, nesse  êxtase, enquanto neste "os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas". Esta diferença, por quê? Porque Deus não é de confusão, e sim de paz (I Cor 14: 32-33a).  

A busca pelo Outro - essa saudade da qual já nos falava Santo Agostinho - pode, sim, nos levar a caminhos de solidão, quando, equivocadamente, depositamos nossas esperanças num simples ser humano, numa criatura semelhante a nós, sujeita aos mesmos sentimentos. Esse anseio pelo divino - esta semente da religião plantada no homem - é uma semente delicada, que facilmente se vê aviltada por nossa natureza caída.

"Escravo da Alegria" é capaz de mostrar toda essa experiência religiosa da busca pelo Outro, enquanto uma procura desfocada, perdida, idólatra. Porque, dentro de nós, essa procura pode se corromper, se depravar e, como mostra a música, ela termina nos versos finais de um carpe diem, ressaltado ainda mais pela fatalidade apregoada pelos compositores, na consciência de fantasia, de ilusão, que é a vida - tese acentuada também, e principalmente, na parceria de Toquinho com Vinícius.

Quanto à música, há pinceladas nesse violão que traduzem muito bem uma dor, uma frustração machucada de que tudo isso - essa alegria - não passa de vento, vaidade. Uma alegria que é escapismo das mazelas da vida ("hoje em dia, minha gente, isso não é normal"). 

Lindíssimo, mas tristemente fatalista. Para esse carnaval cantado por eles, impõe-se a certeza trágica de uma inescapável quarta-feira de cinzas!

3 comentários:

Ligian disse...

Às vezes passo por aqui, leio e penso: adorei!
Foi isso!
Bjim!

Casal 20 disse...

Ligian, querida!

Abraços sempre afetuosos, amiga.

disse...

Ao analisar com calma a composição vi, no meu entendimento, que a mesma se enquadra numa história de uma paixão entre um casal.

Interesante já conhecia esta musica mas nunca parei para amaliza-la. Muito bom seu texto

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