Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Imitação da água - Cantares de todos nós (IV)

Para Lu, porque esta semana é dela...

 

 

De flanco sobre o lençol,
paisagem já tão marinha,
a uma onda deitada,
na praia, te parecias.

Uma onda que parava
ou melhor: que se continha;
que contivesse um momento
seu rumor de folhas líquidas.

Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.

Uma onda que parara
ao dobrar-se, interrompida,
que imóvel se interrompesse
no alto de sua crista

e se fizesse montanha
(por horizontal e fixa),
mas que ao se fazer montanha
continuasse água ainda.

Uma onda que guardasse
na praia cama, infinita,
a natureza sem fim
do mar de que participa,

e em sua imobilidade,
que precária se adivinha,
o dom de se derramar
que as águas faz femininas

mais o clima de águas fundas,
a intimidade sombria
e certo abraçar completo
que dos líquidos copias.

João Cabral de Melo Neto


O movimento eterno – esta contradição de Newton – é compreendida na poesia da mulher onda deitada sobre essa praia. A mulher onda, o movimento retido,  a crista que não cai sobre si: o prenúncio de tudo aquilo que se espera em suspense e que, sei, está prestes a se derramar...

A mulher onda, que se faz montanha, mas é onda ainda. Esta natureza que se anuncia na praia inusitada. E que é mais, por ser universal – é mar! O mar causa no homem o desejo de se lançar, mas há o medo: a natureza feminina que assusta – o sombrio universo oculto que há por debaixo da simples e bela onda que se vê.

Mas à mulher foi dado o dom de se entregar. E ela vem onda, mar, montanha e essas águas desse teu mar: o abraço completo que dos líquidos tu copias!...

Versos sublimes!

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