Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Auto-estima - Cantares de Salomão (IV)

Eu sou morena, porém formosa, ó filhas de Jerusalém, como as tendas de Quedar, como as cortinas de Salomão. Não olheis para o eu ser morena; porque o sol resplandeceu sobre mim; os filhos de minha mãe indignaram-se contra mim, puseram-me por guarda das vinhas; a minha vinha, porém, não guardei. (Ct 1: 5 e 6; Fiel).


O desejo desperta o olhar dela para o noivo, que é admirado e reverenciado pela comparação que ela faz dele com o rei. Todavia, o amor dela que o enaltece também a faz olhar para si mesma e revelar suas inseguranças e sua falta de amor próprio. 


Como podemos entregar amor ao outro, enquanto temos tantas inquietações em relação a nós mesmos? Mas, parece-me, que as inseguranças dela surgem por causa do coro das virgens, por causa, então, da inveja que seu amor desperta em outras mulheres. 


O tema do amor que nos constrange é um tema que atravessa a Bíblia, pois não sabemos bem porque somos amados por Deus, mas, ao nos descobrirmos amados por Deus, quase que nos encontramos numa situação de ter que pedir desculpas aos outros por estarmos tão felizes! Semelhantemente, ao publicar a sublimidade do seu sentimento, a noiva começa a dar desculpas por seus defeitos, defeitos que para ela são públicos e notórios e que denunciam a todos que ela é totalmente desmerecedora do amor do noivo. Assim, também, ficamos envergonhados ao descobrirmos que, mesmo sendo seres tão mesquinhos, depravados, soberbos, de dura cerviz e desobedientes como nós somos, fomos escolhidos para sermos amados por Deus! 


Cabe notar, aqui, que a noiva não está se dirigindo ao noivo, mas às amigas dela, ao coro das virgens que também admira o amado dela. E aqui se encontra o drama dos sentimentos da noiva: o coro admira seu noivo, mas a escolhida dele foi ela e nenhuma outra de suas amigas. Por isso o texto revela uma mulher que se sente quase coagida a ter que dar ou encontrar razões para a sua eleição. Há mulheres mais belas do que ela, mulheres no próprio coro das virgens, que não carregariam o estigma que ela carrega: a cor morena em sua pele e o fato de ser ela apenas uma simples camponesa (trabalhadora das vinhas). 


O amor do qual ela é alvo a envergonha diante de suas amigas. "Se há mulheres mais belas do que eu, por que fui eu a escolhida?". Mas não há respostas satisfatórias a se dar. O noivo decidiu amá-la; Deus, de modo semelhante, decidiu amar a sua Igreja. 


O casamento é, portanto, uma eleição. Toda eleição traz consigo o resultado de uma preterição. Ao escolhermos o outro estamos preterindo os demais. Porque fomos escolhidos, outros não o foram em nosso lugar. Talvez, aqui esteja o que a incomoda e gera as suas justificativas: "não me vejo bela, tenho vergonha da cor da minha pele e, não só isso, sempre fui deixada de lado até mesmo por meus irmãos. Sei que não servia para muitas coisas, fui humilhada desde a minha casa. Não sou nobre, sou camponesa". Há algo que a envergonha não apenas na sua natureza (e disto, portanto, ela não poderá livrar-se), mas, também, há uma vergonha que já se estende por sua história de vida, desde dentro de sua casa. 


Paradoxalmente, a noiva descobre que seu amor gera inveja às outras. Ela se dirige às amigas que se alegram, mas que gostariam de estar em seu lugar, obviamente. Contudo, uma vez escolhida, o amor imputa valor até sobre aquilo que ela mesma não admira em si: agora ela compara a cor de sua pele às tendas de Quedar e as cortinas de Salomão. Ela sabe que, a despeito dessas realidades do que ela é ou pensa ser, o noivo a ama. "Minha cor é motivo de ornamento no palácio do rei", é o que ela está declarando com altivez. Então, ela segue no resgate de sua auto-imagem. Esta é a descoberta libertadora dela. Ela é amada, ela foi escolhida, apesar de como era vista por si mesma e pelos outros durante a caminhada de sua vida. 


O que importa, afinal? É o fato indiscutivelmente incompreensível de ser ela a noiva, de ser ela a escolhida, a eleita do noivo! 

2 comentários:

Joelma Rocha disse...

Fantástico! Incrível como a Bíblia trata das mais variadas questões e mais incrível ainda é como são questões atuais! Parabéns pela abordagem!

Casal 20 disse...

Joelma, nosso Deus é lindo!

E sua Palavra é rica.

Volte sempre.

Abraços sempre afetuosos.

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