Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Eros e Psique - Cantares de todos nós (II)

 










Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
 

Fernando Pessoa



Novamente, Fernando Pessoa. Os versos, sua mitologia, seus símbolos. Quantas leituras!

Quem é a Princesa? Quem é o Infante? Psique fora encantada e só acordará aos desejos da carne se for despertada – como a noiva em cantares de Salomão – pelo infante Eros. Psique é a personagem que sublima, a alma, o espírito, o céu, a religião etérea, o divino, a figura da castidade com todas as suas implicações. Eros, o infante - infantil e guerreiro! Ele é a sexualidade que precisa ser realizada, que urge como pulsão da carne, do desejo, o inferno, a religião vulgar, o terreno, o natural, o imperfeito, o humano.

Psique está trancada em seu castelo, mas há um caminho... o caminho errado que deve levar nosso herói até ela. Errado pelas dificuldades, obstáculos, terribilidades. Mas Eros precisa se libertar? Ele também está preso? A Princesa  presa no castelo e ele, no emaranhado dos discursos sobre o Bem e o Mal? Ele precisa se libertar desse maniqueísmo funesto que o separa de sua amada. O mundo não é a luta eterna de duas forças iguais e, muito menos, se manterá o equilíbrio das coisas, acreditando-se nisso. Não! Nem ele é o inferno, nem ela é o céu!

A Princesa, como que morta, enfeitada em seu esquife, aguarda por aquele que pode trazer vida à morte que a domina. Ela anseia, ela deseja, ela espera. Mas, as imagens agora parecem se inverter, pois ela, a vida, está morta e ele, a morte, luta contra o equilíbrio das coisas para dar a vida que ela tanto necessita. E ele, o infante, lutará e virá, ainda que sem saber qual o propósito de tudo isso, apenas porque as coisas devem ser assim... Ele não é razão. Ele é pulsão. É preciso enfrentar o caminho errado. Por quê? Ele não sabe: ele não é razão. Ele segue, esforçado. Quem é ele? Ela não sabe. Quem é ela? Ele não conhece.

Todavia, ainda que ignorantes acerca do verdadeiro conhecimento sobre si mesmos, há um Destino, um propósito que os guia e faz existir a estrada. Alguém quer este encontro entre o Infante e a Princesa, entre Eros e Psique. Tudo está sendo cumprido: este encontro, a busca da unidade!

A nossa ignorância do que somos e do que há na estrada não é usada como desculpa para a fatalidade ou desistência. Ele segue até ela, ainda que não possa nem mesmo confiar na estrada, porque também não a compreende na sua totalidade.

A luta do Infante – a passagem da infância para a vida adulta – o despertar do amor erótico na tez fria da razão que nega que ela mesma era o príncipe que a descobre! 

Finalmente, revela-se a todos (personagens e leitores) que a luta era pela unidade dos cacos dispersados pela excessiva queda – o fim da dicotomia, o fim desse dualismo!

Enfim, a negação da existência de um conflito cósmico entre o reino da Luz (Psique) e o das sombras (Eros), porque somos uma unidade: Eros e Psique são uma só natureza - caída, depravada, estilhaçada, carentes da glória de Deus - esta natureza  humana de cada um de nós. 

4 comentários:

disse...

Tremendo. Natureza humana caída, que necessita da glória de Deus. Maravilhoso. Paz!

Casal 20 disse...

Rô, querida!

Estamos aqui num corre-corre terrível, devido às férias em Caldas Novas. Sabe como que é, né? Águas quentes, muito stress (rsrsrsrs).

Embora nosso acesso à inter fique restrito por estes dias, estaremos por aqui para postar e responder seus comentários, minha amiga.

Abraços sempre afetuosos.

disse...

Ok, vocês são dez. Deus os abençoe sempre!

Anônimo disse...

Fiquei emocionada ao ler essainterpretacao do belíssimo poema de Fernando pessoa. Parabens

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