Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 22 de janeiro de 2011

A biblioteca - Cantares de todos nós (III)

Sete anos de pastor Jacob servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela;
mas não servia ao pai, servia a ela,
e a ela só por prémio pretendia.

Os dias, na esperança de um só dia,
passava, contentando se com vê la;
porém o pai, usando de cautela,
em lugar de Raquel lhe dava Lia.

Vendo o triste pastor que com enganos
lhe fora assi negada a sua pastora,
como se a não tivera merecida;

começa de servir outros sete anos,
dizendo: —Mais servira, se não fora
para tão longo amor tão curta a vida.
Camões

Cresci ouvindo minha mãe recitar esses versos dentro de nossa casa. Ela sempre se postava imponente, levantava levemente seu rosto e, então, começava sua interpretação. Nem sequer imaginava, naquela infância, que o soneto tantas vezes declamado por ela era sobre uma linda história bíblica de amor. Aqui comigo, fico a pensar quais histórias os pais andam contando aos seus filhos e quais versos recitam para eles hoje em dia!...


Minha mãe também gostava de repetir para nós as conjugações do latim que aprendera na escola. Sei, infelizmente, que da minha parte já não poderei presentear minhas filhas recitando conjugações de um latim que só vim a estudar tardiamente.


Outra característica marcante daquele tempo é que minha casa era uma "casa de apostas". Reuníamo-nos, a família toda ao redor da mesa, e as apostas começavam. "Mãe, o que quer dizer...?" Aí, ela respondia: "Isto significa isso"! Então, minhas irmãs respondiam: "Mãe, acho que a senhora está errada"... Pronto! Era o suficiente para ela desafiar: "Quer apostar? Olha, não aposta comigo não, que vocês vão perder". Elas apostavam e corríamos aos dicionários da Biblioteca e... Pá! Minha mãe ganhava!


Minha mãe sempre nos impressionava com seu vasto vocabulário de inglês: "Aurélia! A mulher dicionário!", dizia ela de si mesma toda vez que perguntávamos o significado de alguma palavra, fosse em inglês, fosse em português. Mas aquela infância ficou há muito num tempo reservado apenas às lembranças de nossas conversas saudosas, quando ainda hoje conseguimos nos reunir uma vez mais...


Meu pai foi professor também. Que privilégio esse de crescer numa casa em que havia biblioteca. Li a Barsa e a Delta Larousse na minha infância. Acho que vem daí sempre ter sido um apaixonado por história e geografia, matérias que meu pai ensinava. Entretanto, preciosa mesmo era a coleção de literatura dos premiados pelo Nobel, que havia naquela biblioteca: pude ler Sidarta, de Hermann Hess; li, nesta mesma coleção, Thomas Mann, Rudyard Kipling, Anatole France, Yeats, Bernard Shaw, Eugene O'Neill e tantos outros ainda antes dos 14 anos de idade: era a vasta biblioteca do meu pai! Nela, pude ler a deliciosa coleção "Mundo da criança"; a Coleção "Histórias e Lendas", que trazia uma seleção de narrativas folclóricas de cada região do Brasil... Sei do valor de uma biblioteca, esforço-me para montar uma para minhas filhas.


A Biblioteca do meu pai se foi, mas os seus livros, coleções e enciclopédias ficaram registrados em mim. Ainda antes daquela preciosa biblioteca se perder, ela me deu um último presente. Foi quando eu estava vivendo o período crítico que antecedeu à conversão e, convidado para visitar uma igreja, saindo às pressas de casa, encontrei naquela biblioteca uma Bíblia que nunca antes havia visto. Uma Bíblia de capa preta e, ao mostrá-la para minha mãe, ela disse que havia sido um presente que meu pai recebera quando vivo. Surpreso pelo achado inusitado, abri e apareceram diante dos meus olhos os seguintes versos marcados ali à caneta:


"Porque a palavra da cruz é loucura para os que perecem; mas para nós, que somos salvos, é o poder de Deus. Porque está escrito: Destruirei a sabedoria dos sábios, E aniquilarei a inteligência dos inteligentes. Onde está o sábio? Onde está o escriba? Onde está o inquiridor deste século? Porventura não tornou Deus louca a sabedoria deste mundo? Visto como na sabedoria de Deus o mundo não conheceu a Deus pela sua sabedoria, aprouve a Deus salvar os crentes pela loucura da pregação. Porque os judeus pedem sinal, e os gregos buscam sabedoria; Mas nós pregamos a Cristo crucificado, que é escândalo para os judeus, e loucura para os gregos. Mas para os que são chamados, tanto judeus como gregos, lhes pregamos a Cristo, poder de Deus, e sabedoria de Deus. Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens" (I Cor 1: 18-25).


Ao terminar de ler, levantei os olhos daqueles versos maravilhosos. Ali, eles me atingiram de um modo indelével e fiquei como que encantado. Assim, pude perceber, mais uma vez, que a partir daquela vasta biblioteca, algo novo, inefavelmente novo, eu estava prestes a aprender...

3 comentários:

Márcia Suzuki disse...

Agora entendi sua aptidão literária... com uma família destas... que maravilha! No início do mês comecei uma jornada de meia hora diária de poesia com nossas crianças. Em três dias várias dela ja tinham decorado As Borboletas, de Vinícios de Morais. Fico às vezes me sentindo meio solitária por insistir que nossas crianças cultivem amor pelos livros e tenham acesso à literatura. Mas textos como esse seu me animam e me dizem que não estou sozinha. Cresci num lar assim, de mãe pobre, mas apaixonada pelas letras. Muito obrigada,
Marcia Suzuki

Casal 20 disse...

Márcia, querida!

Muito bom te ver por aqui.

Vocês estão no nosso "causas apaixonantes", logo ali embaixo no blog.

Estamos juntos, sempre.

Amamos o seu belo comentário. Quando a gente tem crianças amadas por perto da gente, parece que certas coisas fazem mais sentido, não?

Abraços sempre afetuosos na sua linda família.

Samir . disse...

Excelente texto, muito bem redigido. Muito bonita a história, e melhor ainda é saber que soube aproveitar todo o conhecimento que continha na biblioteca citada, podendo nos passar momentos de reflexão como este.

Tem selos para você lá no blog. QUando puder, passe para pegá-los.

Abraços.

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