Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

A alegria - Cantares de Salomão (III)

Leva-me tu; correremos após ti. O rei me introduziu nas suas câmaras; em ti nos regozijaremos e nos alegraremos; do teu amor nos lembraremos, mais do que do vinho; os retos te amam.
(Ct 1: 4; Fiel)


O desejo agora é expressado no coro, o coro das virgens que se alegram e que se identificam com a mulher que deseja. O desejo pelo amado é revelado com tanta sinceridade - a entrega explícita que ela faz ao seu amado: "leva-me tu" – que contagia as amigas que passam a reverberar com a noiva o seu cântico que se espalha no ar.

Quantas pessoas se vêem envolvidas nas festividades dos noivos! Nossa geração esqueceu que o casamento, além de ter sido instituído por Deus, apresenta-se como um evento no qual "deixa o homem seu pai e sua mãe". Há um marco. Um rito. A sacralidade do matrimônio que é público e divino. As amigas da noiva estão em festa, porque sabem do coração efusivo da noiva apaixonada. Não é possível ficarmos inertes diante da celebração de um homem e uma mulher apaixonados. Esse momento era tão sublime, rito sagrado marcado por tão grande reverência pelos judeus, que o livro de Cantares era lido em toda festa de Páscoa. Mas, por quê? A Páscoa era a passagem da escravidão à vida de liberdade – eis o matrimônio: uma passagem, um batismo que nos leva da morte para a verdadeira vida! Hipérbole metafórica? Mas, são exatamente estas as imagens cristalizadas no simbolismo judeu.

As imagens vão transbordando da taça inebriante desses versos que nos lembra a frase divina, sentença do Criador: "Não é bom que o homem esteja só". Sozinho, quem é o homem? Um ser criado à imagem e semelhança de Deus, portanto, completo! A que solidão, então, Deus estaria se referindo? Qual o objetivo, afinal, da criação da mulher? A mulher é a ajudadora, a companheira, aquela que levará o homem a compreender sua própria relação com Deus. Há analogia na relação de um homem e sua mulher e a relação de Deus com esse homem. A entrega ao amor matrimonial guarda a promessa de podermos aprofundar nossa vida espiritual com o Criador. Assim, saídos da escravidão do Egito passamos agora a fazer festa para o Deus da nossa libertação, o Deus do nosso amor.

Ao realizar o primeiro casamento, Deus o faz no contexto do sábado. O sábado é o dia da recreação, do gozo eterno diante da obra do Criador! Os judeus compreendiam que o sábado era o "intercessor" entre o povo e o Deus Yaweh! Daí, lerem o livro de Cantares durante as festas da Páscoa. Daí, precisarmos reler essas páginas de celebração e corrermos após a noiva contagiados por sua alegria. Esta alegria transforma nossos olhos: eis que o amado dela é comparado a um rei que a carrega ao palácio dele. Ela o aclama, aprecia, considera, elogia, enaltece o seu amado. À semelhança do povo que festeja no deserto a libertação, ela festeja o seu amado. O casamento é, por isso mesmo, a analogia do amor de Deus pela sua Igreja, entregando esta ao seu Filho amado, o noivo.

A entrega ao amor matrimonial guarda a promessa de podermos compreender o amor de Deus pela Igreja e como deveria ser nossa resposta apaixonada ao Deus da Igreja. Contagie-mo-nos, então, dessa alegria!


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