Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

sábado, 18 de dezembro de 2010

Cantares de todos nós (I)

Apontamento


A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaço do que havia loiça no vaso.


Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.


Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.


Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?


Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.


Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.


Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.


A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem porque ficou ali.

Álvaro de Campos, Apontamento, in Poesia , Assírio & Alvim, ed. Teresa Rita Lopes, 2002.


Esses versos de Campos (Fernando Pessoa) têm me acompanhado por muitos anos exatamente por sua identificação com o que eu pensava ser - cacos de um vaso vazio - e pela minha leitura pessoal que encontra nesse poema um diálogo com a narrativa bíblica da Queda.

Quando o homem caiu, aquela identidade unívoca em Deus partiu-se também em inúmeras vozes dentro do ser humano. A queda do vaso é a queda do homem, que se multiplica e não consegue mais sua própria unidade. Mas, veja no poema, que a queda do vaso é testemunhada pelos vários deuses que estão observando, sorrindo, alienados à condição do homem partido. São os deuses tolerantes ao descuido da criada. São deuses que focam sua atenção não no homem dilacerado, mas na criada deles. Todavia, não há juízo, julgamento, castigo, apenas a tolerância intolerável de deuses que não intervêm naquela triste condição humana. 

E, mais, as múltiplas identidades, cacos do eu original, que não sabem refletir a própria condição de indiferença dos deuses que há. Eles mesmos, os deuses, não expressam sentimento algum sobre o valor do vaso. Seria mesmo o vaso apenas um vaso vazio? Não há resposta naqueles deuses à indagação do caco, que permanecerá confuso de si mesmo e confuso diante de deuses sem consciência do desastre daquela queda.

Vejo o poema como um discurso da pessoa sem Cristo, a voz é a voz do ser falido, o eu poético que expressa a condição da humanidade quebrada, caída, quedada, multifacetada na sua identidade original. Portanto, a salvação em Cristo é o resgate dessa unidade perdida, a reconciliação com Deus e consigo mesmo. A busca pela unidade da identidade partida, mas ainda guardada no Criador que intervém (ao contrário dos deuses do poema). 

Concluo que a identidade não é meramente uma construção social. Ao contrário, parece que, muitas vezes, nessa construção social - a interação com os outros também partidos  - os nossos cacos apenas se partem ainda mais. O que eu sou, quem sou, é um segredo a ser descoberto no Ser de Deus. Ele, sim, me conhece inteiro; enquanto eu, se distante dEle, apenas me confundo nesses pedaços de mim.

O nosso Deus é o Deus que não pode tolerar a queda excessiva da sua criatura!

Veja ainda esta interpetação do poema:

4 comentários:

disse...

Sem Cristo somos sem identidade, e as vezes com nossas construções com os outros também partidos acabamos nos quebrando ainda mais, só em Deus nos descobrimos, pois só ele nos conhece. Adorei. Muito bom. Paz querido!

Casal 20 disse...

Rô, volte sempre, gostamos muito da sua companhia e comentários por aqui.

Abraços sempre afetuosos.

"LABAREDAS DE FOGO" disse...

Eu quero ser, Senhor amado
Como um vaso na mão do oleiro
Quebra minha vida e faça de novo
Eu quero ser! eu quero ser!
Um vaso novo!

Casal 20 disse...

Labareda, muito bem lembrado.

Eu recebi um e-mail de um amigo que disse que se sentia assim, um vaso quebrado por causa da perda de alguém a quem ele muito amava. Disse para ele, que só Deus pode juntar os cacos, só Deus se importa em nos refazer. Os deuses não.

Relendo o que você escreveu, a letra dessa música, lembro que ela ressalta que somos vasos defeituosos e mal-formados por termos tentado nos colar, refazer-mo-nos a nós mesmos. Daí, a música mostrar a necessidade de sermos quebrados e "remontados" por Aquele que sabe muito bem como éramos no coração da Eternidade.

Labareda, seja sempre muito bem vindo.

Abraços sempre afetuosos.

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