Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço, porque o amor é forte como a morte, e duro como a sepultura o ciúme; as suas brasas são brasas de fogo, com veementes labaredas. As muitas águas não podem apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa pelo amor, certamente o desprezariam (Ct 8: 6-7; Fiel).

terça-feira, 28 de março de 2017

Apolo e Dafene

Apolo e Dafene, obra de Motohiko Odani
Para Lucila Ribas

Teu corpo oculta o açúcar da cicuta que bebo:
Nua taça de palavras incrustadas no teu beijo!

Corpo que revela muito mais que mero lampejo:
Esta frase destilada da tez que eu tanto desejo!

Teu corpo, formosa rosa de tua mística doutrina:

Perde-se para mim numa flora de heras infindas! 

Teu corpo, esta narrativa de grácil tessitura divina,
Sob verdes jazidas, jaza tua contextura incontida! 

A síncope do teu signo redigido, este símbolo mor:
Fogo grego, bizantino, teu corpo que recito de cor!

Se esta anagogia'rrebenta as divisas de tua allegoria:

É que nunca jamais lira alguma ao teu corpo cativaria!

Fábio Ribas

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

O rouxinol e a rosa (Oscar Wilde)



"Ela disse que dançaria comigo se eu lhe trouxesse rosas vermelhas", exclamou o jovem Estudante, "mas em todo o meu jardim não há nenhuma rosa vermelha."

Do seu ninho no alto da azinheira, o Rouxinol o ouviu, e olhou por entre as folhas, e ficou a pensar.

"Não há nenhuma rosa vermelha em todo o meu jardim!", exclamou ele, e seus lindos olhos encheram-se de lágrimas. "Ah, nossa felicidade depende de coisas tão pequenas! Já li tudo que escreveram os sábios, conheço todos os segredos da filosofia, e no entanto por falta de uma rosa vermelha minha vida infeliz."

"Finalmente, eis um que ama de verdade", disse o Rouxinol. "Noite após noite eu o tenho cantado, muito embora não o conhecesse: noite após noite tenho contado sua história para as estrelas, e eis que agora o vejo. Seus cabelos são escuros como a flor do jacinto, e seus lábios são vermelhos como a rosa de seu desejo; porém a paixão transformou-lhe o rosto em marfim pálido, e a cravou-lhe na fronte sua marca."

"Amanhã haverá um baile no palácio do príncipe", murmurou o jovem Estudante, "e minha amada estará entre os convidados. Se eu lhe trouxer uma rosa vermelha, ela há de dançar comigo até o dia raiar. Se lhe trouxer uma rosa vermelha, eu a terei nos meus braços, e ela deitará a cabeça no meu ombro, e sua mão ficará apertada na minha. Porém não há nenhuma rosa vermelha no meu jardim, e por isso ficarei sozinho, e ela passará por mim sem me olhar. Não me dará nenhuma atenção, e meu coração será destroçado."

"Sim, ele ama de verdade", disse o Rouxinol. "Aquilo que eu canto, ele sofre; o que para mim é júbilo, para ele é sofrimento. Sem dúvida, o Amor é uma coisa maravilhosa. É mais precioso do que as esmeraldas, mais caro do que as opalas finas. Nem pérolas nem romãs podem comprá-lo, nem é coisa que se encontre à venda no mercado. Não é possível comprá-lo de comerciante, nem pesá-lo numa balança em troca de ouro".

"Os músicos no balcão", disse o jovem Estudante, "tocarão seus instrumentos de corda, e meu amor dançará ao som da harpa e do violino. Dançará com pés tão leves que nem sequer hão de tocar no chão, e os cortesãos, com seus trajes coloridos, vão cercá-la. Porém comigo ela não dançará, porque não tenho nenhuma rosa vermelha para lhe dar." E jogou-se na grama, cobriu o rosto com as mãos e chorou.

"Por que chora ele?", indagou um pequeno Lagarto Verde, ao passar correndo com a cauda levantada.

"Sim, por quê?", perguntou uma Borboleta, que esvoaçava em torno de um raio de sol.

"Sim, por quê?", sussurrou uma Margarida, virando-se para sua vizinha, com uma voz suave.

"Ele chora por uma rosa vermelha", disse o Rouxinol.

"Uma rosa vermelha?", exclamaram todos. "Mas que ridículo!" E o pequeno Lagarto, que era um tanto cínico, riu à grande.

Porém o Rouxinol compreendia o segredo da dor do Estudante, e calou-se no alto da azinheira, pensando no mistério do Amor.

De repente ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o arvoredo como uma sombra, e como uma sombra cruzou o jardim.

No centro do gramado havia uma linda Roseira, e quando a viu o Rouxinol foi até ela, pousando num ramo.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti".

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são brancas", respondeu ela, "tão brancas quanto a espuma do mar, e mais brancas que a neve das montanhas. Porém procura minha irmã que cresce junto ao velho relógio de sol, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto ao velho relógio de sol.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são amarelas", respondeu ela, "amarelas como os cabelos da sereia que está sentada num trono de âmbar, e mais amarelas que o narciso que floresce no prado quando o ceifeiro ainda não veio com sua foice. Porém procura minha irmã que cresce junto à janela do Estudante, e talvez ela possa te dar o que queres."

Assim, o Rouxinol voou até a Roseira que crescia junto à janela do Estudante.

"Dá-me uma rosa vermelha", exclamou ele, "que cantarei meu canto mais belo para ti."

Porém a Roseira fez que não com a cabeça.

"Minhas rosas são vermelhas", respondeu ela, "vermelhas como os pés da pomba, e mais vermelhas que os grandes leques de coral que ficam a abanar na caverna no fundo do oceano. Porém o inverno congelou minhas veias, e o frio queimou meus brotos, e a tempestade quebrou meus galhos, e não darei nenhuma rosa este ano."

"Uma única rosa vermelha é tudo que quero", exclamou o Rouxinol, só uma rosa vermelha! Não há nenhuma maneira de consegui-la?"

"Existe uma maneira", respondeu a Roseira, "mas é tão terrível que não ouso te contar."

"Conta-me", disse o Rouxinol. "Não tenho medo."

"Se queres uma rosa vermelha", disse a Roseira, "tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-Ia com o sangue de teu coração. Tens de cantar para mim apertando o peito contra um espinho. A noite inteira tens de cantar para mim, até que o espinho perfure teu coração e teu sangue penetre em minhas veias, e se torne meu."

"A Morte é um preço alto a pagar por uma rosa vermelha", exclamou o Rouxinol, "e todos dão muito valor à Vida. É agradável, no bosque verdejante, ver o Sol em sua carruagem de ouro, e a Lua em sua carruagem de madrepérola. Doce é o perfume do pilriteiro, e as belas são as campânulas que se escondem no vale, e as urzes que florescem no morro. Porém o Amor é melhor que a Vida, e o que é o coração de um pássaro comparado com o coração de um homem?"

Assim, ele abriu as asas pardas e levantou vôo. Atravessou o jardim como uma sombra, e como uma sombra voou pelo arvoredo.

O jovem Estudante continuava deitado na grama, onde o Rouxinol o havia deixado, e as lágrimas ainda não haviam secado em seus belos olhos.

"Regozija-te", exclamou o Rouxinol, "regozija-te; terás tua rosa vermelha. Vou criá-la com minha música ao luar, e tingi-la com o sangue do meu coração. Tudo que te peço em troca é que ames de verdade, pois o Amor é mais sábio que a Filosofia, por mais sábia que ela seja, e mais poderoso que o Poder, por mais poderoso que ele seja. Suas asas são da cor do fogo, e tem a cor do fogo seu corpo. Seus lábios são doces como o mel, e seu hálito é como o incenso.

O Estudante levantou os olhos e ficou a escutá-lo, porém não compreendia o que lhe dizia o Rouxinol, pois só conhecia as coisas que estão escritas nos livros.

Mas o Carvalho compreendeu, e entristeceu-se, pois ele gostava muito do pequeno Rouxinol que havia construído um ninho em seus galhos.

"Canta uma última canção para mim", sussurrou ele; "vou sentir-me muito solitário depois que tu partires."

Assim, o Rouxinol cantou para o Carvalho, e sua voz era como água jorrando de uma jarra de prata.

Quando o Rouxinol terminou sua canção, o Estudante levantou-se, tirando do bolso um caderno e um lápis.

"Forma ele tem", disse ele a si próprio, enquanto se afastava, caminhando pelo arvoredo, "isso não se pode negar; mas terá sentimentos? Temo que não. Na verdade, ele é como a maioria dos artistas; só estilo, nenhuma sinceridade. Não seria capaz de sacrificar-se pelos outros. Pensa só na música, e todos sabem que as artes são egoístas. Mesmo assim, devo admitir que há algumas notas belas em sua voz. Pena que nada signifiquem, nem façam nada de bom na prática." E foi para seu quarto, deitou-se em sua pequena enxerga e começou a pensar em seu amor; depois de algum tempo, adormeceu.

E quando a Lua brilhava nos céus, o Rouxinol voou até a Roseira e cravou o peito no espinho. A noite inteira ele cantou apertando o peito contra o espinho, e a Lua, fria e cristalina, inclinou-se para ouvir. A noite inteira ele cantou, e o espinho foi se cravando cada vez mais fundo em seu peito, e o sangue foi-lhe escapando das veias.

Cantou primeiro o nascimento do amor no coração de um rapaz e de uma moça. E no ramo mais alto da Roseira abriu-se uma rosa maravilhosa, pétala após pétala, à medida que canção seguia canção. Pálida era, de início, como a névoa que paira sobre o rio - pálida como os pés da manhã, e prateada como as asas da alvorada. Como a sombra de uma rosa num espelho de prata, como a sombra de uma rosa numa poça d' água, tal era a rosa que floresceu no ramo mais alto da Roseira.

Porém a Roseira disse ao Rouxinol que se apertasse com mais força contra o espinho. Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e seu canto soou mais alto, pois ele cantava o nascimento da paixão na alma de um homem e uma mulher.

E um toque róseo delicado surgiu nas folhas da rosa, tal como o rubor nas faces do noivo quando ele beija os lábios da noiva. Porém o espinho ainda não havia penetrado até seu coração, e assim o coração da rosa permanecia branco, pois só o coração do sangue de um Rouxinol pode tingir de vermelho o coração de uma rosa.

E a Roseira insistia para que o Rouxinol se apertasse com mais força contra o espinho. "Aperta-te mais, pequeno Rouxinol", exclamou a Roseira, "senão o dia chegará antes que esteja pronta a rosa."

Assim, o Rouxinol apertou-se com ainda mais força contra o espinho, e uma feroz pontada de dor atravessou-lhe o corpo. Terrível, terrível era a dor, e mais e mais tremendo era seu canto, pois ele cantava o Amor que é levado à perfeição pela Morte, o Amor que não morre no túmulo.

E a rosa maravilhosa ficou rubra, como a rosa do céu ao alvorecer. Rubra era sua grinalda de pétalas, e rubro como um rubi era seu coração.

Porém a voz do Rouxinol ficava cada vez mais fraca, e suas pequenas asas começaram a se bater, e seus olhos se embaçaram. Mais e mais fraca era sua canção, e ele sentiu algo a lhe sufocar a garganta.

Então desprendeu-se dele uma derradeira explosão de música. A Lua alva a ouviu, e esqueceu-se do amanhecer, e permaneceu no céu. A rosa rubra a ouviu, e estremeceu de êxtase, e abriu suas pétalas para o ar frio da manhã. O Eco vou-a para sua caverna púrpura nas montanhas, e despertou de seus sonhos os pastores adormecidos. A música flutuou por entre os juncos do rio, e eles levaram sua mensagem até o mar.

"Olha, olha!", exclamou a Roseira, "a rosa está pronta." Porém o Rouxinol não deu resposta, pois jazia morto na grama alta, com o espinho cravado no coração.

E ao meio-dia o Estudante abriu a janela e olhou para fora.

"Ora, mas que sorte extraordinária!", exclamou. "Eis aqui uma rosa vermelha! Nunca vi uma rosa semelhante em toda minha vida. É tão bela que deve ter um nome comprido em latim." E, abaixando-se, colheu-a.

Em seguida, pôs o chapéu e correu até a casa do Professor com a rosa na mão.

A filha do Professor estava sentada à porta, enrolando seda azul num carretel, e seu cãozinho estava deitado a seus pés.

"Disseste que dançarias comigo se eu te trouxesse uma rosa vermelha", disse o Estudante. "Eis aqui a rosa mais vermelha de todo o mundo. Tu a usarás junto ao teu coração, e quando dançarmos ela te dirá quanto te amo."

Porém a moça franziu a testa.

"Creio que não vai combinar com meu vestido", respondeu ela; "e, além disso, o sobrinho do Tesoureiro enviou-me jóias de verdade, e todo mundo sabe que as jóias custam muito mais do que as flores."

"Ora, mas és mesmo uma ingrata", disse o Estudante, zangado, e jogou a rosa na rua; a flor caiu na sarjeta, e uma carroça passou por cima dela.

"Ingrata!", exclamou a moça. "Tu é que és muito mal-educado; e quem és tu? Apenas um Estudante. Ora, creio que não tens sequer fivelas de prata em teus sapatos, como tem o sobrinho do Tesoureiro." E, levantando-se, entrou em casa.

"Que coisa mais tola é o Amor!", disse o Estudante enquanto se afastava. "É bem menos útil que a Lógica, pois nada prova, e fica o tempo todo a nos dizer coisas que não vão acontecer, e fazendo-nos acreditar em coisas que não são verdade. No final das contas, é algo muito pouco prático, e como em nossos tempos ser prático é tudo, vou retomar a Filosofia e estudar Metafísica."

Assim, voltou para seu quarto, pegou um livro grande e poeirento, e começou a ler.

A Bela e a Fera


Mil vezes passasse, mil vezes assistiria! Vários elementos do Evangelho estão presentes nesse belíssimo filme francês, como deve ser num clássico conto de fadas: a maldição do pecado causada pela desobediência e pela cobiça, a ira dos céus, a fé, a perseverança, a quebra da maldição pelo Amor sacrificial, o vermelho da rosa, o arrependimento, o perdão, a morte da Besta e a ressurreição para uma nova vida! E a pregação cristã e eterna de que, por trás desse mundo de aparências, a verdade com toda sua beleza triunfará no final.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Sexo - um poema reencontrado

SEXO

A poça de água
Na qual brincava
Fez-se
O poço da noite
No qual m’escondia
Fez-se
O fosso do medo
No qual m’escoava
Fez-se
A fossa do erro
Na qual me traía!

(Fábio Ribas)


            Há algumas semanas, visitando a casa dos meus sogros, tive a surpresa de reencontrar um livro que julgava perdido. O título do livro é “O cravo de dez crivos” e traz, como subtítulo, a seguinte frase: “De quando Dagon despencou da estante do meu quarto de dormir”. O livro foi escrito por mim no período do mês de julho do ano de 1997. Um livro de contos sobre um dos períodos mais difíceis que vivi na minha caminhada cristã, um tempo de queda, de profunda angústia espiritual, ocorrido quando eu tinha apenas dois anos de conversão. Um mês no qual tive que enfrentar antigos demônios que se aproveitaram de minha imaturidade cristã para bater novamente na porta da minha casa. Os contos deste livro estão datilografados. Pretendo lança-los neste ano em um e-book, se Deus quiser.

            “Sexo”, contudo, é um poema de um outro livro. Um livro da minha vida pregressa, minha vida sem Cristo. Esse poema estava datilografado numa folha de papel junto do livro “O cravo de dez crivos”, mas ele pertence a outro livro.  “Sexo” foi o único poema que restou de um livro intitulado “Estilhaços” e que foi escrito por mim no ano de 1994. Escrito, portanto, um ano antes da minha conversão e que testemunha não apenas a condição em que eu me encontrava sem Jesus, mas também de toda aquela geração de jovens brasilienses com quem eu andava junto, visitando o que chamávamos de “inferninhos” da Capital Federal. Literalmente, nos encontrávamos estilhaçados pelo pecado.  

            Foi num desses “inferninhos”, naquele ano de 1994, ainda à porta de um daqueles lugares, que fui assaltado pela profunda convicção de que havia chegado ao fundo do poço e que não haveria mais salvação para mim. Por causa daquele ambiente de promiscuidade e drogas, vi-me pensando que eu nunca teria uma família, nunca teria esposa e filhos... Jesus, misericordiosamente, resgatou-me daquele universo de vermes. Jesus arrancou-me das mãos de Satanás, daquele império de trevas e trouxe-me para o Reino de sua luz. A história da minha conversão, que ocorreu em 1995, toda reflexão que ela me causou está narrada no livro “A trajetória do indivíduo”, que você pode acessar aqui.


          Quando comecei a escrever este post, pensei em dizer alguma coisa sobre o poema “Sexo”, porém, como diz um amigo meu, ele é autoexplicativo. Jesus trouxe-me daquela fossa à vida e ele pode fazer isso com você também. Jesus Cristo, o Deus que se encarnou, andou entre nós e conheceu as minhas dores e as suas dores; Jesus foi tentado pelas mesmas tentações que vêm sobre nós e ele lutou contra o pecado. Na Cruz, Jesus venceu! E o Espírito Santo o trouxe glorioso da morte como, um dia, fará também com todos aqueles que o amaram e o aceitaram como único Senhor e Salvador. Jesus recebeu toda a Ira de Deus no meu lugar. Agora, verdadeiramente, sou livre para servir ao Deus da minha salvação. 

         Você também pode conhecer essa salvação. Leia a Bíblia. Leia o Evangelho segundo João. E ore a Deus para que Ele derrame em teu coração a fé que salva. E, depois de tudo isso, proclame o Evangelho para outras pessoas. Conte aos outros as maravilhas que Deus operou na sua vida! Pregue sobre as boas novas da Cruz, do amor, do perdão, da regeneração, da santidade e da reconciliação com Deus Pai, reconciliação que só é possível em Jesus. Ele é o único que pode restaurar os estilhaços que o pecado fez da tua vida. Toda glória a Deus!!!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

A Cruz de Cristo e o meu adultério - o 6º post mais lido neste seis anos de blog!

Portanto, eu afirmo a vocês o seguinte: o homem que mandar a sua esposa embora, a não ser em caso de adultério, se tornará adúltero se casar com outra mulher.
Mateus 19: 9



A história universal dos amores humanos é quase sempre interferida por uma série de adultérios de consequências terríveis, todavia, quero tomar como centro da minha abordagem o primeiro adultério – Adão e Eva. O adultério de nossos antigos pais é o arquétipo para todos os demais casos de traição presentes na psique universal.

O adultério nunca deve ser compreendido apenas em seu aspecto sexual, mas, principalmente, devemos estender seu significado às traições ocorridas em todos os níveis de um relacionamento humano. O adultério matrimonial especifica-se na presença de um “outro”, um terceiro elemento na cena de uma relação em que a cumplicidade deveria ser apenas de ambos, o marido e a mulher. Maridos ou esposas que cultivam “melhores amigos” e com estes dividem segredos que jamais compartilhariam com seus próprios cônjuges ou que denigrem a imagem do parceiro a outros e, até mesmo, que pedem dinheiro emprestado a terceiros sem o conhecimento e o consentimento do seu par exemplificam alguns desses casos de adultérios muito comuns no dia a dia de tantos casais que se julgam fiéis um ao outro.


O adultério é sempre a traição da lealdade e não, tão somente, uma questão de infidelidade sexual. Esta, quando ocorre, pode muito bem ser explicada pelo adultério espiritual que se verifica já cometido anteriormente na vida desse casal. Jesus deixou isso explícito no sermão da montanha quando disse que o adultério não se restringe apenas em relacionar-se sexualmente com outra pessoa, mas, antes, é essa cobiça destituída de testemunhas do nosso pensamento por outro(a).


O adultério é uma falha, um rasgo, uma profunda falésia no oceano do caráter da nossa natureza humana. A dificuldade que temos em compreender essa dimensão real e profunda do adultério deve-se ao fato de que nossa sociedade é extremamente sexista e tende a esconder as origens da infidelidade no limitado ambiente freudiano de uma propalada repressão de nossos impulsos sexuais: tratamos o resultado como se este fosse a causa, quando, na verdade, é a consequência visível de uma silenciosa erosão espiritual. Por isso, quase todas as definições e abordagens acerca do adultério refletem esse espírito sexual do nosso tempo, como, por exemplo, esta de Voltaire: "Em latim, adultério quer dizer alteração, adulteração, colocar uma coisa em lugar de outra, crime de falsidade, uso de chaves falsas, contrato falso. Daí o nome adultério dado a quem profana o leito conjugal, como chave falsa introduzida em fechadura alheia." Ledo engano do filósofo que abre mão das águas assombrosas do oceano para aportar na praia tranquila da obviedade. Precisamos ir muito além dessas metáforas sexuais, ou melhor, precisamos retornar ao princípio, se quisermos entender que o problema não é o adultério sexual, mas o coração corrupto do homem do qual nascem todos os demais adultérios, inclusive o sexual.


Adão e Eva estabelecem-se como o padrão do adultério que aqui busco tratar. Apesar das inúmeras tentativas de sexualizar a história desse casal, o que de fato ocorreu no jardim do Éden foi uma deslealdade, uma desobediência, uma traição ao Deus que os criou e lhes presenteou com toda sorte de bênçãos das quais ambos usufruíam: o pecado, portanto, é a corrupção das virtudes humanas! Estas, agora, encontram-se estilhaçadas e para cultivá-las é preciso que o homem faça-o a partir da fadiga do seu trabalho, sabendo que, em meio às virtudes, nascem cardos e abrolhos também.


Desde aquela narrativa de Gênesis, o modelo vai se instaurar de tal maneira no imaginário do Povo que, sempre que este se afastar de Deus para seguir falsos deuses, as Sagradas Escrituras afirmarão que o Povo de Deus é um povo adúltero, uma prostituta, uma meretriz. Este é o ensino bíblico: somos todos adúlteros, porque traímos os preceitos, os votos, a Aliança de Deus. A Bíblia dirá que a Igreja é a noiva do Senhor, mas a noiva está em adultério e perdida no mundo apesar de todo o favor recebido da parte de Seu Noivo. Ainda no Antigo Testamento, Deus fará Oseias experimentar algo do próprio sofrimento divino e registrar em livro os tormentos do profeta com sua esposa adúltera. Todavia, Oseias é impelido por Deus a não desistir daquela com quem ele casou apesar de inúmeros casos de traição por parte dela. O profeta paga um alto preço para retirar sua esposa do mercado de escravos em que ela foi parar depois de uma vida entregue à prostituição. Oseias é o protótipo do próprio Deus, que não desistirá do seu Povo apesar da prostituição deste. A Bíblia, então, diz que para re-editar a Aliança em uma Nova Aliança, Deus envia seu Filho, o Noivo, para morrer por essa mulher adúltera, que somos cada um de nós!



Na Teologia do Pacto, há o Ser divino, Uno e Trino, e que não precisa do homem e nem de seu louvor, mas que decide livremente compartilhar conosco do amor perfeito existente na Santíssima Trindade, o amor perfeito e suficiente entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse amor a ser compartilhado com o homem fora decidido na Eternidade, todavia, por saber que o ser humano adulterará e trairá a Aliança, o Pai promete ao Filho resgatar a Sua Noiva e dar a ela a vida eterna se o Filho entregar-se por ela, se o Noivo decidir livre e espontaneamente amá-la até à morte e morte na cruz. É no Seu próprio sangue derramado na Cruz do Calvário que o Noivo compra e livra-nos deste mercado de escravos ao qual nos condenamos! O fim desta, que é a mais bela história de amor de todos os tempos, nós já conhecemos bem. A cruz é a história do amor de Deus que suplanta o adultério da Noiva! Deus decidiu amar Seu povo e ser fiel ao Seu próprio caráter santo, ainda que Ele tivesse o direito de nos repudiar e nos condenar à morte por causa de nosso adultério.


A Paixão e a Ressurreição de Jesus é pagamento e resgate – é na história humana que vemos desenrolar o drama da redenção de nosso adultério primordial. O Espírito Santo tem chamado a Noiva de Cristo às bodas do Cordeiro. Eis que as nossas vestes sujas pela fornicação e prostituição espirituais serão trocadas pela veste alva da noiva que entra na nave da Igreja – imagem já tão desbotada da cultura decadente e descristianizada de nossa geração. Por isso, aqueles que escutarem o chamado do Noivo, ouvirem a Sua voz clamando por sua amada Sulamita, precisam responder ao Noivo: sim, eu aceito! É nesta resposta que encontraremos a paz da reconciliação com Aquele que jamais deixou de amar sua Noiva. Enfim, a Cruz e o túmulo vazio - e não o divórcio e nem a morte por apedrejamento - são a resposta de Deus ao meu adultério!
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